terça-feira, 30 de junho de 2026

Diário de leitura #1: Metamorfoses, Ovídio

Acabei de finalizar a leitura do primeiro livro das Metamorfoses e, para não perder o costume, lembrei de começar um novo diário de leitura por aqui.
Ainda não cheguei ao mito que justifica a escolha dessa capa horrível :D

Essa leitura estava me esperando há quase dois anos e agora que finalizei a releitura da Odisseia achei que era um ótimo momento para partir rumo a uma das leituras que estava mais ansiosa para começar! 

Desde 2023 venho tentando ler ao menos um épico por ano e tem dado certo! Este é o terceiro ano do projeto (acho que já posso chamar assim) e agora chegou a vez de Ovídio e suas metamorfoses. Sempre tive curiosidade com este em específico e sempre que uma leitura começa com esse sentimento curioso ela é um sucesso por aqui. Estou lendo pela edição da Penguin Classics que conta com a tradução do Rodrigo Tadeu Gonçalves e acabei de finalizar o primeiro livro (são 15) e, até o momento, está sendo bem tranquilo. As primeiras páginas de um épico podem ser assustadoras e pode surgir aquele questionamento: "eu sei ler? o que é isto?", mas acho importante dizer que considero isso como algo bom: diante de uma leitura assim temos muito o que aprender como, por exemplo, a melhorar nosso nível de leitura.

Nos outros diários de leitura eu sempre anexava aos textos algum site de apoio ou vídeo que utilizei para adentrar com mais segurança na leitura mas desta vez eu não selecionei nada ainda. Pode ser que no decorrer da leitura eu procure por ajudas e elas devem aparecer nos próximos diários. 

O que estou usando de apoio é um livro que comprei ano passado em uma viagem chamado "Dicionário de Mitologia Greco-Romana" da Abril Cultural. Tem me ajudado bastante porque o dicionário traz um pequeno resuminho de mitos, personagens e lugares citados nas Metamorfoses. Não sei o quão fácil é encontrá-lo, mas certamente é um bom título para se ter em casa caso você goste de mitologia grega.

Amo fazer marca-páginas. Estou estreando este com essa leitura.

Agora, sobre o primeiro livro:

Uma diferença em relação aos demais épicos surge desde o início: aqui, a narração se desenvolve em torno de diversos mitos. Por vezes eu fiquei um pouco confusa com a transição entre os narradores e mitos, mas algo bem legal nesta edição é que há divisão em pequenos "capítulos" dentro do livro. Não sei se isso é algo presente em outras edições também ou se o próprio Ovídio fez essas divisões. No fim das contas isso facilita bastante e permite até fazer umas breves pausas na leitura.

Outra coisa que gostaria de destacar é a beleza dos versos! Claro que essa questão passa pela tradução, que interfere muito nesta questão estética, mas acredito que no original, em latim, essa beleza seja parte do épico também. As referências à natureza e à geografia são abundantes e as figuras de linguagem também. Acho que posso dizer que, neste aspecto, Homero é bem mais seco e direto ao ponto, o que faz sentido já que estamos falando dos primórdios da tradição poética. Ovídio bebe de toda essa tradição e, portanto, desenvolve e aperfeiçoa o legado artístico ancestral. 

Esta edição que estou usando para ler contêm boas notas explicativas nas páginas e não no final do volume (o que é muito melhor, na minha opinião). 

Partes preferidas do livro I: a narração da criação do homem; a descrição sobre a primavera eterna na Idade de Ouro; Dafne tornando-se um loureiro (apesar da razão ser horrível) e, bem no finalzinho do livro, a introdução ao mito de Faetonte (um dos meus favoritos).

Alguém por aqui já leu? 

Até mais!

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Exercícios de escrita #1: canteiro de obras, memórias do subsolo e humildade

Quando penso neste livro penso num homem descontrolado invadindo um canteiro de obras em uma cidade pequena. A obra estaria localizada justamente na avenida principal da cidadezinha e claramente ameaçaria a estabilidade urbanística da região: a avenida principal ganharia, pela primeira vez, um edifício com mais de dois andares. A revolta daquele homem não seria suficiente para que a obra fosse interrompida ou algo do tipo, apesar de que os vizinhos dele também passaram a sentir raiva com o tempo. Dizem que a raiva pode ser contagiosa e neste caso foi mesmo: a construção continuou e o edifício ficou pronto. Mas a que custo? 

Nos dois primeiros capítulos de "Ortodoxia" (cujos títulos são, respectivamente: "O Lunático" e "O suicídio do pensamento"), Chesterton invade esse canteiro de obras em que vivemos e parte do pressuposto de que o local passou por uma grande demolição. Será que conseguimos recolher algo desses escombros?

No primeiro capítulo, o fio condutor gira em torno da simples ideia de que "autoconfiança completa não é meramente um pecado; é uma fraqueza". Talvez não exista nada melhor que exemplifique esta ideia do que "Memórias do Subsolo" do Dostoiévski. Tenho um leve pressentimento de que o Chesterton leu esse livro do Dostoiévski, pois as conexões entre as ideias de ambos são impressionantes. Já esbocei essas ideias em outro texto (clique aqui para ler), mas, basicamente, o homem do subsolo é analisado psicologicamente pelo Chesterton: o que enlouquece alguém não é a imaginação, mas a razão. O homem doente do subsolo é doente porque perdeu tudo e todos, exceto a razão. 

O que, afinal de contas, pode garantir a sanidade do homem? Segundo o autor, é o senso de mistério. Enquanto há mistério, há saúde. Mistério em que sentido? No sentido de reconhecimento da insuficiência da mera realidade material. A visão do "místico" é dupla (uma sobreposição da realidade espiritual sobre a material) e, portanto, melhor. 

Uma das minhas frases preferidas do livro está no capítulo II: "... se um homem quer tornar seu mundo grande, deve sempre tornar a si mesmo pequeno". Reconhecer nossa pequenez diante os mistérios da realidade, pois como diz o mesmo autor em outra obra: "a humildade é a mãe dos gigantes."

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Comentários sobre a "carta aos jovens sobre a utilidade da literatura pagã" de São Basílio

Sempre tive muita curiosidade em relação a este título por conta do meu interesse pela Tradição Clássica, mas especialmente por Homero.


São Basílio Magno, autor da carta, viveu no século IV de nossa era e destacou-se pela sua erudição e habilidade de oratória. Logo conseguimos perceber esta habilidade durante a leitura da carta, inclusive. O texto é repleto de citações a textos romanos e latinos. Aliás, quero fazer até uma lista dos autores e obras citadas.

O ponto principal da carta resume-se ao questionamento acerca da conveniência da leitura da literatura pagã para os cristãos. A dúvida devido ao conteúdo de conteúdos explícitos ou tidos como viciosos pelos cristãos dentro da literatura profana. Basta conhecer um pouco sobre a natureza sensual dos deuses olímpicos para entender o ponto.

São Basílio, homem de sabedoria distinta, vai direto ao ponto logo no início: devemos nos ocupar "da leitura dos poetas, dos oradores, de todos os escritores que podem nos servir para aperfeiçoar nossa alma." Pois se quisermos imprimir em nossas almas uma noção firme de beleza devemos iniciar nas leituras profanas se quisermos chegar nas coisas sagradas. Tal ideia se conecta com o fim da carta quando Basílio escreve que "a leitura profana nos ajuda a traçar o primeiro esboço de virtude."

Portanto, o que o arcebispo de Cesareia faz é defender a utilidade das leituras dos escritores pagãos nos círculos de estudos cristãos de seu século. A questão diferencial é que, para Basílio, aquele que não pode entregar-se por completo aos autores profanos já que o cristão, ao se deparar com aspectos questionáveis da moralidade greco-romana, deveria saber decantar o conteúdo, separar o joio do trigo. A regra de ouro seria: absorver tudo que há de bom e útil e rejeitar o que não convêm. 

O louvor à virtude já estava contido nas obras provenientes da Tradição Clássica e, portanto, caberia ao leitor cristão saber extrair estas máximas de sabedoria.

Basílio cita Homero e o seu "constante elogio à virtude". Algo interessante, neste ponto da leitura, me fez lembrar de uma leitura do ano passado (que inclusive comentei aqui no blog): "Mito e Realidade" do Mircea Eliade, onde o escritor romeno comenta sobre o processo de "metaforização" e "alegorização" dos mitos no contexto helenístico, quando os mitos passam a serem desacreditados como crença religiosa. A ascensão da noção de moralidade passou a colaborar com a ideia de que não fazia mais sentido acreditar em deuses tão soberbos e descontrolados. Agora, a mitologia passaria a ser lida como espaço de meras manifestações simbólicas. Eliade diz que foi esse processo de alegorização que "salvou" Homero culturalmente falando.

Basílio, portanto, parece estar nessa nova maneira de interpretação do arcabouço mitológico greco-romano onde: "pelo fato de não estar mais carregada de valores religiosos viventes, essa herança mitológica pôde ser aceita e assimilada pelo cristianismo. Ela se convertera num 'tesouro cultural'. Em última análise, a herança clássica foi salva pelos poetas, pelos artistas e filósofos" (página 137 de "mito e realidade").

Por fim, essa alternativa oferecida por Basílio não menospreza a tradição clássica de maneira alguma, mas, muito pelo contrário: a vê como um córrego que enche um rio.