Estou estudando mais sobre a Odisseia enquanto a releio dois anos após a minha releitura. Agora, além de me atentar ao enredo em si, estou pesquisando e me detendo em aspectos específicos que serão úteis para a futura pesquisa no mestrado.
Ano passado eu havia comprado este livro e agora acabei o pegando pois acreditei que seria o momento ideal para o consultar. O primeiro capítulo já começa na Odisseia e a explicação do autor para isso já me causou interesse: a Odisseia abre as portas para aquilo que seria a transição entre o "mythos" e "logos", ou seja, entre o predomínio da mitologia e a ascensão da filosofia.
O autor, o francês Luc Ferry, oferece algumas linhas de interpretações para a obra e gostaria de compartilhar sobre elas aqui.
Na primeira, o autor nos faz pensar sobre como a Odisseia é uma jornada rumo à ordenação do cosmos, daquela amostra de realidade na qual a epopeia se situa. Com Ulisses partimos do caos ocasionado pela guerra à harmonia [desejada] do lar. Ulisses parte de Troia com o intento de retomar o seu posto central em seu pequeno cosmos, a sua Ítaca que, mal ele sabia, também estava tomada pelo caos provocado pela sua ausência. Entretanto, a jornada rumo ao lar é tomada por obstáculos. Afinal de contas, o custo que se tem para alcançar a harmonia é alto.
O processo de retorno ao seu pequeno cosmos não se resume ao retorno ao seu estado inicial. Não podemos reduzir a sua volta [e a transformação deste episódio em uma das maiores epopeias da história da humanidade] a uma explicação meramente mecânica e isenta de um sentido maior, pois fazer isso seria perder grande parte daquilo que podemos extrair da história. O retorno do herói ao seu lar é, também, um retorno a sua identidade, àquilo que o torna verdadeiramente homem: o convívio com os pares. Aqui, é importante fazer um adendo para dizer que esta interpretação só faria pleno sentido se posicionada na Grécia pós advento da ideia de pólis, onde a cidade passa a ser o espaço ideal para o exercício da essência do homem enquanto ser político o que, no caso de Homero, não é possível já que as epopeias representariam uma sociedade anterior àquela que tomaria forma até ser a pólis que tanto conhecemos. Portanto, esta explicação é estritamente simbólica. A questão fundamental é compreender que, ao retornar ao seu pequeno cosmos, Ulisses retorna ao espaço onde o seu eixo existencial toma forma: a cidade, o palácio.
Longe da ordenação familiar e política e, neste caso, na guerra, o homem perde o seu senso de ser e as suas memórias familiares tornam-se insignificantes. Perder a memória, para um grego, é literalmente conhecer a morte. O que é o inferno grego se não aquele espaço onde os espíritos tornam-se indistintos e sem nome?
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