Quando penso neste livro penso num homem descontrolado invadindo um canteiro de obras em uma cidade pequena. A obra estaria localizada justamente na avenida principal da cidadezinha e claramente ameaçaria a estabilidade urbanística da região: a avenida principal ganharia, pela primeira vez, um edíficio com mais de dois andares. A revolta daquele homem não seria suficiente para que a obra fosse interrompida ou algo do tipo, apesar de que os vizinhos dele também passaram a sentir raiva com o tempo. Dizem que a raiva pode ser contagiosa e neste caso foi mesmo: a construção continuou e o edíficio ficou pronto, mas a que custo?
Nos dois primeiros capítulos de "Ortodoxia" (cujos títulos são, respectivamente: "O Lunático" e "O suícidio do pensamento"), Chesterton invade esse canteiro de obras em que vivemos e parte do pressuposto de que o local passou por uma grande demolição. Será que conseguimos recolher algo desses escombros?
No primeiro capítulo, o fio condutor gira em torno da simples ideia de que "autoconfiança completa não é meramente um pecado; é uma fraqueza". Talvez não exista nada melhor que exemplifique esta ideia do que "Memórias do Subsolo" do Dostoiévski. Tenho um leve pressentimento de que o Chesterton leu esse livro do Dostoiévski, pois as conexões entre as ideias de ambos são impressionantes. Já esbocei essas ideias em outro texto (clique aqui para ler), mas, basicamente, o homem do subsolo é analisado psicologicamente pelo Chesterton: o que enlouquece alguém não é a imaginação, mas a razão. O homem doente do subsolo é doente porque perdeu tudo e todos, exceto a razão.
O que, afinal de contas, pode garantir a sanidade do homem? Segundo o autor, é o senso de mistério. Enquanto há mistério, há saúde. Mistério em que sentido? No sentido de reconhecimento da insuficiência da mera realidade material. A visão do "místico" é dupla (uma sobreposição da realidade espiritual sobre a material) e, portanto, melhor.
Uma das minhas frases preferidas do livro está no capítulo II: "... se um homem quer tornar seu mundo grande, deve sempre tornar a si mesmo pequeno". Reconhecer nossa pequenez diante os mistérios da realidade, pois como diz o mesmo autor em outra obra: "a humildade é a mãe dos gigantes."
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