segunda-feira, 14 de outubro de 2024

Resenha: Jane Eyre de Charlotte Brontё

Após finalizar a leitura de A morte de Ivan Ilitch do Tolstói, eu senti vontade de ler algo mais leve para compensar a pedrada que foi esse livrinho que havia escolhido despretensiosamente. Acontece que depois me questionei: algo leve pode surgir do convulsionado século XIX? Ouso dizer que não. Sem me dar conta acabei pousando novamente no mesmo século, mas só voltei algumas décadas. 

A minha vontade de ler um romance romântico foi sim saciada com Jane Eyre, mas eu não esperava encontrar aqui um colosso como este: a surpresa foi contínua até a última página até porque eu iniciei a minha leitura sabendo somente de duas coisas: 1) era um dos livros favoritos de uma amiga e 2) eu encontraria algum romance ali. Mas, para minha surpresa, o livro me apresentou muito mais do que eu poderia tentar imaginar. Confesso que a capacidade imaginativa das irmãs Brontё me causa uma leve inveja. DE ONDE SURGEM ESSAS IDEIAS? Se alguém souber, por favor, me conte.

Quando decidi que leria Jane Eyre, fui logo pesquisar qual das edições disponíveis seria a escolhida. Dei uma rápida olhada e acabei comprando a que estava mais barata e na promoção: a da Zahar. Comprei por R$ 44,00 na primeira quinzena de setembro (deixo aqui a informação detalhada assim caso alguém queira ler e esteja pesquisando os preços). Pois bem, tenho algumas ressalvas.


Primeiro que a edição é de ótima qualidade: encadernação ótima, capa dura (o que torna o livro pouco maleável), boa diagramação, folha amarela e notas! As notas aqui se tornam muito importantes já que o repertório e imaginário da Charlotte não é brincadeira: sem as notas um leitor comum não consegue acompanhar as referências feitas ao longo da narrativa. Ou seja: é importante considerar. Parece que a edição atual da Penguin não tem notas, mas não tenho certeza. Agora sim, minhas ressalvas. Primeiramente: não gostei da capa. Segundo: que texto introdutório horripilante. 

Aproveito o ensejo para comentar sobre algo que, posteriormente, se mostrou importante na discussão sobre o enredo da obra. As releituras e críticas recentes apresentam uma nova roupagem para a personagem da Jane: uma roupagem feminista. Não vou discutir sobre o assunto aqui porque não tenho propriedade para opinar sobre, mas posso sim dizer que vejo essa reinterpretação da obra como uma espécie de cegueira. Cegueira por parte dos que tentam analisar a narrativa sob uma perspectiva, ao que tudo indica, inexistente. Até me lembrei agora de uma parte marcante no início do livro: “De todo modo, porém, sentia que Helen Burns considerava as coisas sob uma luz invisível aos meus olhos." (página 76)

Conforme a história vai avançando fica bem evidente que luz invisível é essa: a luz que somente a Graça pode nos proporcionar. 


O caminho que Jane realiza durante as páginas é o caminho de amadurecimento pelo qual todos deveriam se submeter: das desgraças e infelicidades à compreensão real do sofrimento e do sacrifício. Caminho este que não pode ser entendido plenamente sem os olhos da fé, pois sim: acredito que este seja um romance de teor profundamente cristão. Charlotte Brontё realiza tal façanha em um dos séculos mais descrentes da história humana, portanto, se torna até compreensível que as entrelinhas não sejam compreendidas.

Àqueles que não são iluminados pela luz invisível, pode parecer loucura o que Jane faz ao fim da narrativa: tão loucura quanto o que Abrãao decide fazer quando Deus o pede que sacrifique seu filho, Isaque.

Eu nunca havia lido um romance de formação (são romances mais extensos que acompanham a personagem durante anos de sua vida), e uma das coisas que mais gostei foi justamente a profundidade no desenvolvimento da personalidade da protagonista. No caso da Jane isso se torna ainda mais interessante porque as características da personagem são um dos pontos principais aqui: acompanhamos uma personagem forjada em situações extremas, sejam psicológicas ou circunstanciais, desde a infância até os anos mais maduros. 

Jane Eyre tinha tudo para se tornar amargurada, à semelhança de sua tia, mas certas influências a ajudam a seguir por outro caminho: o do perdão e o da vida dedicada ao serviço, características estas que são maravilhosamente trabalhadas nos anos da juventude de Jane e que refletem profundamente a natureza feminina que se torna ainda mais vívida no fim do livro.

Jane deseja, a todo instante, ser útil e utilizar seus dons e aptidões em serviço do próximo, o que, aliás, se torna perceptível várias vezes no decorrer da narrativa.

Uma das genialidades da Charlotte foi trazer a questão da ociosidade feminina a qual as mulheres estavam imersas na cultura europeia da Modernidade, ociosidade esta que fica extremamente aparente nos livros da Jane Austen, por exemplo. O que torna Jane Eyre tão diferente das outras personagens femininas dos romances, até o momento, foi a sua reação a tal ociosidade: Jane não se submete à inatividade tão comum às mulheres daquela época. Mesmo quando a protagonista encontra uma situação confortável na qual poderia se acomodar, ela não cruza os braços achando que já havia feito tudo o que poderia: ela deseja mais, deseja se doar mais, deseja amar mais. Jane Eyre nos exemplifica uma vida de serviço, sacrifício e, principalmente, obediência a Deus.

A própria personagem reconhece que tal inatividade era totalmente danosa a si mesma quando afirma: “Eu não podia evitar: a inquietude estava em minha natureza, e às vezes me agitava a ponto de me causar sofrimento". E toda essa reflexão me fez lembrar de uma página que li há mais de dois anos onde Santa Edith Stein, a grande filósofa do século XX, nos ensina que o maior e melhor remédio contra as imperfeições femininas é o TRABALHO, que nos afasta da individualidade e da superficialidade. E talvez seja isso que aconteça nos livros da Jane Austen 😅.

No fim, Jane só queria encontrar a sua vocação individual na Terra, só queria dotar a sua vida de sentido, e por isso penso que todos nós podemos nos identificar um pouco com ela.

Ah... como é maravilhoso encontrar um novo livro favorito! Mas como é triste saber que nunca mais poderei o ler pela primeira vez...


quarta-feira, 25 de setembro de 2024

Primeiros dias da primavera

Eu gosto muito da virada do inverno para a primavera. 

Aqui no Centro-Oeste (em Brasília, pelo menos) nós só temos duas estações bem definidas - verão chuvoso e inverno seco -, apesar disso, sinto que o tempo realmente muda na transição entre as duas estações. Em setembro temos o mês mais quente e seco, mas quando outubro se aproxima a natureza vai mudando e a chuva vem chegando. 

Estamos a uns 160 dias sem chuva, todo ano é a mesma coisa. Ficamos bem felizes quando os primeiros pingos chegam em outubro por aqui. Eu amo dias chuvosos, eles são especiais e têm uma beleza diferente dos outros. Sinto falta da chuva.

Nesse ano, o que mudou um pouco por aqui foram a gravidade das queimadas. De certa forma nós já estamos um tanto quanto acostumados com aquele cheiro da mata pegando fogo porque acontece todos os anos ao redor. Porém, nas últimas semanas foi bem mais intenso e grave. Vimos uma névoa espessa e amarelada que cobriu o céu de Brasília por dias.

Agora, parece que o calor está indo embora bem aos poucos. Estou bem ansiosa pela chuva.
Estes registros foram feitos nestes primeiros dias de primavera (que começou no domingo, dia 22) com uma câmerazinha digital aqui de casa. Quando passei para o computador fiquei surpresa com a qualidade das fotos.

O pé de morangos aqui de casa nunca esteve tão saudável e feliz. Os morangos não crescem tanto por alguma razão que desconhecemos, mas eles têm se multiplicado a cada dia. Já usamos para enfeitar um bolo de cenoura e para comer no café da manhã com panqueca. Eles são uma gracinha e espero que fiquem vivos por bastante tempo.

Eu fico muito impressionada em como as cores da natureza se complementam. A diversidade das cores também é impressionante. Esse verde das folhas é surreal de lindo, sem dúvidas uma das minhas cores preferidas.

Eu também quis redecorar meu quadro de cortiça com coisas relacionadas à primevera. Ficou assim:

Minha mesa também foi alvo da câmera digital. Estas são as minhas leituras do momento. Aquele urso lendo ali foi um marca-páginas que fiz ontem! O saquinho de coelho feito pela minha amiga também é pura primavera. Estou amando Jane Austen e uma das minhas coisas preferidas tem sido as descrições da natureza.

Sigo confirmando a minha teoria de que o segundo semestre do ano sempre passa mais rápido do que o primeiro. Ja já estamos comemorando o Natal, mas enquanto isso quero aproveitar os dias como eles são. A cada dia basta o seu cuidado e atenção.








Até mais!

terça-feira, 24 de setembro de 2024

Sobre formar-se: o espirito deve triunfar sobre a matéria.

Continuando as leituras dentro do tema educação, acabei começando a leitura de um livro que até então só tinha usado para fazer consultas: A Formação da Personalidade, do Padre Leonel Franca. Por isso, quero muito ir escrevendo breves reflexões por aqui conforme eu for lendo.

Amo essa capa!

Acho que já comentei por aqui sobre como eu sou um tanto quanto pessimista quando o tema é educação e é engraçado falar isso enquanto estudo para ser professora (e professora de história ainda por cima...).

Ontem estava no Instagram e vi um post sobre como a maior parte das pessoas formadas em história não exercem a profissão ou estão desempregadas. Nos comentários o que havia era basicamente tristeza, lamentos e pessoas desaconselhando as outras a NÃO seguirem por esse caminho, pelo caminho da docência no geral. Olha, se eu tivesse escolhido ser professora simplesmente por escolher, sem nenhum motivo mais concreto, eu já estaria em uma crise existencial daquelas. Estudar sobre o que é uma boa educação e sobre a importância dela são alguns dos motivos pelos quais eu continuo no meu caminho aparentemente tortuoso. 

Parece ser meio radical hoje em dia não querer viver pensando ou tomando decisões somente pelas circunstâncias temporais e espaciais em torno de nós. A materialidade da vida moderna não somente triunfou sobre o espírito, mas o aniquilou

Nessa primeira parte do livro, o Padre fala algo interessante sobre como a aquisição de técnicas, de meios para exercer determinada profissão precisa estar em consonância com a formação do homem. Ora, isso é exatamente o oposto do acontece hoje em dia. Os anos de estudo e de especialização nem se quer tocam o espirito dos homens hoje em dia. Vemos as escolas, as faculdades, os cursos profissionalizantes instruindo homens e não formando-os.

Mas ok, o que seria exatamente essa formação? Seria o cultivo daquilo que nós temos de melhor, daquilo que está adormecido em nossas naturezas decaídas. A verdadeira educação preocupa-se primordialmente em despertar a perfectibilidade adormecida no homem por meio das virtudes e dos hábitos. É tornar-se bom, instruir a vontade, ser capaz de tomar decisões direcionadas ao Bem.

Não somos de ceira, somos de mármore.

Acontece que o homem não consegue formar-se pelas suas próprias forças: ele é dependente, é tributário, nas palavras do Padre, do tempo e do lugar que vive. Não somos espíritos; pelo corpo, entramos no espaço e no tempo, pertencemos a um país, a uma raça, e daí sofremos inúmeras restrições nos nossos desenvolvimentos possíveis (p. 17).

E pensar sobre tudo isso me levou de volta aos meus estudos do ano passado enquanto me preparava para escrever sobre a educação dos gregos antigos. Educação esta que também é configurada como clássica e que se diferencia enormemente da educação moderna justamente por esta questão: conforme os séculos foram passando, a educação foi se descolando do aspecto formativo e se tornando cada vez mais apenas instrutiva e enciclopédica. Esse parece ser, a meu ver, o cerne do problema da educação moderna.

A educação participa na vida e no crescimento da sociedade, tanto no seu destino exterior como na sua estruturação interna e desenvolvimento espiritual; e, uma vez que o desenvolvimento social depende da consciência dos valores que regem a vida humana, a história da educação está essencialmente condicionada pela transformação dos valores válidos para cada sociedade. À estabilidade das normas válidas corresponde a solidez dos fundamentos da educação (Werner Jaeger em Paideia, p. 6).