terça-feira, 30 de junho de 2026

Diário de leitura #1: Metamorfoses, Ovídio

Acabei de finalizar a leitura do primeiro livro das Metamorfoses e, para não perder o costume, lembrei de começar um novo diário de leitura por aqui.
Ainda não cheguei ao mito que justifica a escolha dessa capa horrível :D

Essa leitura estava me esperando há quase dois anos e agora que finalizei a releitura da Odisseia achei que era um ótimo momento para partir rumo a uma das leituras que estava mais ansiosa para começar! 

Desde 2023 venho tentando ler ao menos um épico por ano e tem dado certo! Este é o terceiro ano do projeto (acho que já posso chamar assim) e agora chegou a vez de Ovídio e suas metamorfoses. Sempre tive curiosidade com este em específico e sempre que uma leitura começa com esse sentimento curioso ela é um sucesso por aqui. Estou lendo pela edição da Penguin Classics que conta com a tradução do Rodrigo Tadeu Gonçalves e acabei de finalizar o primeiro livro (são 15) e, até o momento, está sendo bem tranquilo. As primeiras páginas de um épico podem ser assustadoras e pode surgir aquele questionamento: "eu sei ler? o que é isto?", mas acho importante dizer que considero isso como algo bom: diante de uma leitura assim temos muito o que aprender como, por exemplo, a melhorar nosso nível de leitura.

Nos outros diários de leitura eu sempre anexava aos textos algum site de apoio ou vídeo que utilizei para adentrar com mais segurança na leitura mas desta vez eu não selecionei nada ainda. Pode ser que no decorrer da leitura eu procure por ajudas e elas devem aparecer nos próximos diários. 

O que estou usando de apoio é um livro que comprei ano passado em uma viagem chamado "Dicionário de Mitologia Greco-Romana" da Abril Cultural. Tem me ajudado bastante porque o dicionário traz um pequeno resuminho de mitos, personagens e lugares citados nas Metamorfoses. Não sei o quão fácil é encontrá-lo, mas certamente é um bom título para se ter em casa caso você goste de mitologia grega.

Amo fazer marca-páginas. Estou estreando este com essa leitura.

Agora, sobre o primeiro livro:

Uma diferença em relação aos demais épicos surge desde o início: aqui, a narração se desenvolve em torno de diversos mitos. Por vezes eu fiquei um pouco confusa com a transição entre os narradores e mitos, mas algo bem legal nesta edição é que há divisão em pequenos "capítulos" dentro do livro. Não sei se isso é algo presente em outras edições também ou se o próprio Ovídio fez essas divisões. No fim das contas isso facilita bastante e permite até fazer umas breves pausas na leitura.

Outra coisa que gostaria de destacar é a beleza dos versos! Claro que essa questão passa pela tradução, que interfere muito nesta questão estética, mas acredito que no original, em latim, essa beleza seja parte do épico também. As referências à natureza e à geografia são abundantes e as figuras de linguagem também. Acho que posso dizer que, neste aspecto, Homero é bem mais seco e direto ao ponto, o que faz sentido já que estamos falando dos primórdios da tradição poética. Ovídio bebe de toda essa tradição e, portanto, desenvolve e aperfeiçoa o legado artístico ancestral. 

Esta edição que estou usando para ler contêm boas notas explicativas nas páginas e não no final do volume (o que é muito melhor, na minha opinião). 

Partes preferidas do livro I: a narração da criação do homem; a descrição sobre a primavera eterna na Idade de Ouro; Dafne tornando-se um loureiro (apesar da razão ser horrível) e, bem no finalzinho do livro, a introdução ao mito de Faetonte (um dos meus favoritos).

Alguém por aqui já leu? 

Até mais!

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Exercícios de escrita #1: canteiro de obras, memórias do subsolo e humildade

Quando penso neste livro penso num homem descontrolado invadindo um canteiro de obras em uma cidade pequena. A obra estaria localizada justamente na avenida principal da cidadezinha e claramente ameaçaria a estabilidade urbanística da região: a avenida principal ganharia, pela primeira vez, um edifício com mais de dois andares. A revolta daquele homem não seria suficiente para que a obra fosse interrompida ou algo do tipo, apesar de que os vizinhos dele também passaram a sentir raiva com o tempo. Dizem que a raiva pode ser contagiosa e neste caso foi mesmo: a construção continuou e o edifício ficou pronto. Mas a que custo? 

Nos dois primeiros capítulos de "Ortodoxia" (cujos títulos são, respectivamente: "O Lunático" e "O suicídio do pensamento"), Chesterton invade esse canteiro de obras em que vivemos e parte do pressuposto de que o local passou por uma grande demolição. Será que conseguimos recolher algo desses escombros?

No primeiro capítulo, o fio condutor gira em torno da simples ideia de que "autoconfiança completa não é meramente um pecado; é uma fraqueza". Talvez não exista nada melhor que exemplifique esta ideia do que "Memórias do Subsolo" do Dostoiévski. Tenho um leve pressentimento de que o Chesterton leu esse livro do Dostoiévski, pois as conexões entre as ideias de ambos são impressionantes. Já esbocei essas ideias em outro texto (clique aqui para ler), mas, basicamente, o homem do subsolo é analisado psicologicamente pelo Chesterton: o que enlouquece alguém não é a imaginação, mas a razão. O homem doente do subsolo é doente porque perdeu tudo e todos, exceto a razão. 

O que, afinal de contas, pode garantir a sanidade do homem? Segundo o autor, é o senso de mistério. Enquanto há mistério, há saúde. Mistério em que sentido? No sentido de reconhecimento da insuficiência da mera realidade material. A visão do "místico" é dupla (uma sobreposição da realidade espiritual sobre a material) e, portanto, melhor. 

Uma das minhas frases preferidas do livro está no capítulo II: "... se um homem quer tornar seu mundo grande, deve sempre tornar a si mesmo pequeno". Reconhecer nossa pequenez diante os mistérios da realidade, pois como diz o mesmo autor em outra obra: "a humildade é a mãe dos gigantes."

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Comentários sobre a "carta aos jovens sobre a utilidade da literatura pagã" de São Basílio

Sempre tive muita curiosidade em relação a este título por conta do meu interesse pela Tradição Clássica, mas especialmente por Homero.


São Basílio Magno, autor da carta, viveu no século IV de nossa era e destacou-se pela sua erudição e habilidade de oratória. Logo conseguimos perceber esta habilidade durante a leitura da carta, inclusive. O texto é repleto de citações a textos romanos e latinos. Aliás, quero fazer até uma lista dos autores e obras citadas.

O ponto principal da carta resume-se ao questionamento acerca da conveniência da leitura da literatura pagã para os cristãos. A dúvida devido ao conteúdo de conteúdos explícitos ou tidos como viciosos pelos cristãos dentro da literatura profana. Basta conhecer um pouco sobre a natureza sensual dos deuses olímpicos para entender o ponto.

São Basílio, homem de sabedoria distinta, vai direto ao ponto logo no início: devemos nos ocupar "da leitura dos poetas, dos oradores, de todos os escritores que podem nos servir para aperfeiçoar nossa alma." Pois se quisermos imprimir em nossas almas uma noção firme de beleza devemos iniciar nas leituras profanas se quisermos chegar nas coisas sagradas. Tal ideia se conecta com o fim da carta quando Basílio escreve que "a leitura profana nos ajuda a traçar o primeiro esboço de virtude."

Portanto, o que o arcebispo de Cesareia faz é defender a utilidade das leituras dos escritores pagãos nos círculos de estudos cristãos de seu século. A questão diferencial é que, para Basílio, aquele que não pode entregar-se por completo aos autores profanos já que o cristão, ao se deparar com aspectos questionáveis da moralidade greco-romana, deveria saber decantar o conteúdo, separar o joio do trigo. A regra de ouro seria: absorver tudo que há de bom e útil e rejeitar o que não convêm. 

O louvor à virtude já estava contido nas obras provenientes da Tradição Clássica e, portanto, caberia ao leitor cristão saber extrair estas máximas de sabedoria.

Basílio cita Homero e o seu "constante elogio à virtude". Algo interessante, neste ponto da leitura, me fez lembrar de uma leitura do ano passado (que inclusive comentei aqui no blog): "Mito e Realidade" do Mircea Eliade, onde o escritor romeno comenta sobre o processo de "metaforização" e "alegorização" dos mitos no contexto helenístico, quando os mitos passam a serem desacreditados como crença religiosa. A ascensão da noção de moralidade passou a colaborar com a ideia de que não fazia mais sentido acreditar em deuses tão soberbos e descontrolados. Agora, a mitologia passaria a ser lida como espaço de meras manifestações simbólicas. Eliade diz que foi esse processo de alegorização que "salvou" Homero culturalmente falando.

Basílio, portanto, parece estar nessa nova maneira de interpretação do arcabouço mitológico greco-romano onde: "pelo fato de não estar mais carregada de valores religiosos viventes, essa herança mitológica pôde ser aceita e assimilada pelo cristianismo. Ela se convertera num 'tesouro cultural'. Em última análise, a herança clássica foi salva pelos poetas, pelos artistas e filósofos" (página 137 de "mito e realidade").

Por fim, essa alternativa oferecida por Basílio não menospreza a tradição clássica de maneira alguma, mas, muito pelo contrário: a vê como um córrego que enche um rio. 

Interpretações para Odisseia de Homero

Fonte: Mitologia e Filosofia: o sentido dos mitos gregos de Luc Ferry

Estou estudando mais sobre a Odisseia enquanto a releio dois anos após a minha primeira leitura. Agora, além de me atentar ao enredo em si, estou pesquisando e me detendo em aspectos específicos que serão úteis para a futura pesquisa no mestrado.

Ano passado eu havia comprado este livro e agora acabei o pegando pois acreditei que seria o momento ideal para o consultar. O primeiro capítulo já começa com a Odisseia e a explicação do autor para isso já me causou interesse: a Odisseia abre as portas para aquilo que seria a transição entre o "mythos" e "logos", ou seja, entre o predomínio da mitologia e a ascensão da filosofia.

O autor francês Luc Ferry, oferece algumas linhas de interpretação para a obra e gostaria de compartilhar sobre elas aqui.

Na primeira, o autor nos faz pensar sobre como a Odisseia é uma jornada rumo à ordenação do cosmos. Com Ulisses partimos do caos ocasionado pela guerra à harmonia (desejada) do lar. Ulisses parte de Troia com o intento de retomar o seu posto central em seu pequeno cosmos, a sua Ítaca que, mal ele sabia, também estava tomada pelo caos provocado pela sua ausência. Entretanto, a jornada rumo ao lar é tomada por obstáculos. Afinal de contas, o custo para se alcançar a harmonia é alto. 

O processo de retorno ao seu pequeno cosmos não se resume apenas ao retorno ao seu estado inicial. Não podemos reduzir a sua volta [e a transformação deste episódio em uma das maiores epopeias da história da humanidade] a uma explicação meramente mecânica e isenta de um sentido maior, pois fazer isso seria perder grande parte daquilo que podemos extrair da história. O retorno do herói ao seu lar é, também, um retorno a sua identidade, àquilo que o torna verdadeiramente homem: o convívio com seus semelhantes. Aqui, é importante fazer um adendo para dizer que esta interpretação só faria pleno sentido se posicionada na Grécia apóso advento da ideia de pólis, onde a cidade passa a ser o espaço ideal para o exercício da essência do homem enquanto ser político o que, no caso de Homero, não é possível já que as epopeias representariam uma sociedade anterior àquela que tomaria forma até ser a pólis que tanto conhecemos. Portanto, esta explicação é estritamente simbólica. A questão fundamental é compreender que, ao retornar ao seu pequeno cosmos, Ulisses retorna ao espaço onde o seu eixo existencial toma forma: ao seu oikos.

Longe da ordenação familiar e política e, neste caso, na guerra, o homem perde o seu senso de ser e as suas memórias familiares tornam-se insignificantes. Perder a memória, para um grego, é literalmente conhecer a morte. O que é o inferno grego se não aquele espaço onde os espíritos tornam-se indistintos e sem nome? 

quinta-feira, 5 de março de 2026

Comentários sobre Grande Esperanças de Charles Dickens

Ano passado, no natal, eu tentei ler pelo Kindle Um Conto de Natal do Dickens e, por incrível que pareça, não consegui terminar. Agora, em fevereiro, em meio as leituras da vida de estudos eu estava em busca de uma leitura de descanso para intercalar e acabei pegando da estante Grandes Esperanças e já posso começar dizendo: que surpresa maravilhosa.

Eu queria todos os livros dessa coleção maravilhosa.

O livro narra a história de Pip, um órfão criado pela irmã e pelo cunhado, no interior da Inglaterra, mas próximo da cidade de Londres. O Pip acaba recebendo uma espécie de herança misteriosa e logo a vida dele muda da água para o vinho: ele acaba saindo da vida pacata do interior em direção à vida tipicamente burguesa na capital. Vamos acompanhar, durante as 600 e poucas páginas, a rápida ascensão social de Pip e a lenta e dolorosa decadência moral. O romance é narrado em primeira pessoa pelo próprio protagonista e logo conseguimos perceber que, no meio dessa história por vezes mirabolante, alguma coisa deu errado. 

Eu fiquei surpresa com o desenrolar da história e com a quantidade de cliffhangers que o Dickens inseriu no romance. Essa "tática" faz sentido que os capítulos saíam no jornal. Por vezes senti que eu estava acompanhando um enredo típico de novela das nove (o que eu amei, inclusive). A narrativa é repleta de reviravoltas e não dá vontade de parar de ler (eu cheguei a ler 40 páginas em um dia sem nem reparar). 

Apesar de já ter lidos alguns títulos de autores ingleses, confesso que, pela primeira vez, eu senti interesse pelo país em si. As descrições do Dickens me fizeram pesquisar e abrir o google maps para saber mais sobre os lugares citados e vou confessar que a descrição sincera de Londres colaborou com meu esteriótipo sobre a cidade. Vale lembrar que o livro foi escrito em plena modernização e consolidação do capitalismo na cidade chamada "a oficina do mundo", logo o Dickens viveu e soube retratar magistralmente esse ambiente em sua escrita.

Podemos dizer que Grandes Esperanças é um livro sobre muitos assuntos, mas principalmente sobre arrependimento e sobre autoconsciência moral: o Pip nos mostra que a natureza humana é livre, mas principalmente, livre para se arrepender dos erros cometidos. Também nos mostra que a vergonha de olhar para si, de olhar para o passado, pode ser até uma tentação demoníaca contra o arrependimento genuíno. O Pip me ensinou a não ter medo das feridas abertas por situações e por pessoas: afinal de contas, nós mesmos não estamos isentos de magoar alguém, não é verdade?

As confissões honestas dos momentos de raiva, de vergonha e até nojo que o protagonista sente de pessoas ou lugares são convites para nós, leitores, a olharmos para nosso interior em busca de arrependimento e reconhecimento das nossas quedas. Pip, obrigada pela sua honestidade.

Poderia falar mais sobre muitas coisas: sobre a amizade dele e do Herbert, sobre a relação dele com os adultos durante a infância, sobre a figura peculiar da srta. Havisham e sobre o amor platônico dele por Estela. Sinto que o Dickens soube tratar dos mais variados temas de forma tão singela e natural que mesmo nos momentos inverossímeis da narrativa nos sentimos imersos em uma realidade dolorosa e, principalmente, REAL.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Detox de barulho pelas próximas semanas

Estamos na quaresma. Para os católicos, os quarenta dias que antecedem a Páscoa. É tradição escolher uma penitência para que possamos viver esse período de forma mais meditativa e intencional.

Geralmente a escolha da penitência é particular e privada (ninguém precisa saber), mas eu quis registrar aqui porque eu tenho fé em Deus que Ele vai me ajudar a seguir com a que escolhi para este ano que é não ouvir música.

Eu decidi registrar isso aqui não para me gabar (estamos falando isso em um blog e não no instagram! xD), mas porque acredito que esse "detox de barulho" vai mudar minha vida. Pelo menos é o que eu acho e espero. Digo isso porque dois anos atrás eu consegui, aos poucos, me desapegar do instagram e mudou minha vida também. 

Agora, o objetivo é me desapegar da música. Eu amo música e sempre vou amar, mas eu quero regular isso na minha vida porque percebi que não estava ouvindo música com o intuito de apreciar o conjunto (composição, melodia, intencionalidade), mas porque queria evitar o silêncio mental. Não sei como estava conseguindo estudar com música de fundo. Infelizmente eu estava hiperestimulada mesmo NÃO estando no instagram ou algo do tipo. Enfim, espero poder relatar a linha de chegada daqui um tempo. 

Para complementar o período de reflexão e reclusão, escolhi uma leitura espiritual que tem relação com o que comentei acima chamada "A força do silêncio: contra a ditadura do barulho". Vou aproveitar o ensejo para dizer que: estou sem palavras (kkkkkkkkkkkkkkkkk), que livro maravilhoso e precioso. Só está me fazendo sentir mais raiva do mundo de hiperestimulos e normalização do barulho. Graças a Deus minha vizinha barulhenta deu uma pausa desde o início do ano \o/. 

Frases do livro: 
★ "Não há lugar no mundo onde Deus esteja mais presente do que no coração humano. O coração realmente é a morada de Deus, o templo do silêncio."
★ "O que poderia ser mais justo e mais útil, mais natural e mais conveniente ao ser humano que amar o que é bom? E o que há de tão bom quanto o próprio Deus?"
★ "Quem ama a Deus deve tentar preservar ou criar a atmosfera em que possa encontrá-Lo. Os cristão deveriam ter lares tranquilos porque seus corpos, assim como suas casas, são templos de Deus."
★ "A vida de silêncio deve proceder a vida ativa."
★ "Sem silêncio não há descanso, serenidade ou vida interior."
★ "Os maiores mistérios do mundo nascem e se desenrolam em silêncio. Como a natureza se desenvolve? No maior silêncio."

★ "As maravilhas da criação são silenciosas e só podemos admirá-las em silêncio. A arte também é fruto do silêncio."

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Minhas leituras atuais

Atualmente estou tentando não enlouquecer com a quantidade de coisas que estou lendo. 

A quantidade se justifica porque estou me preparando para o processo seletivo do mestrado e eu ainda nem comecei a lista de leituras para a prova escrita. Já fazem quase dois meses que estava imersa nas leituras para o projeto e não faço ideia de quantos artigos e livros li e consultei desde dezembro. De qualquer forma, senti que ganhei habilidade para fazer consultas e notas eficientes de cada um. Agora quero aprender a fazer bons fichamentos.

Enfim, estou tentando ler coisas por fora também. Eu amo ler, mas às vezes me distancio da leitura por prazer e isso é triste. 

Agora, além das coisas que citei aí, estou lendo/relendo:

#1 Odisseia, de Homero.

Relendo, na verdade. Faz parte do meu projeto e a releitura está sendo boa (é um dos meus livros favoritos), mas não dá pra negar que o prazer da leitura se esvaneceu talvez porque agora tenha deixado de ser só entretenimento. De qualquer forma, estou feliz por reler e animada com o filme do Nolan (animada, mas sem expectativas).

#2 Grandes Esperanças, Charles Dickens.

Eu tentei ler "Um conto de Natal" no ano passado, pelo Kindle e confesso: não estava gostando. Desisti. Masss, acho que neste ano vou tentar ler novamente (em uma versão física). Essa edição de Grandes Esperanças estava aqui me esperando já tinha um tempo e peguei para ler semana passada. No início não estava me sentindo interessada pela história, mas insisti um pouquinho e que maravilha! Estou amando agora. Procurei um pouco sobre o enredo antes e saber, mais ou menos, o que vai acontecer me deixa animada para continuar. Tem capítulos de caráter mais psicológico bem bonitos. 

#3 A vida na Grécia, de Will Durant.

Comprei ano passado, no lançamento, por indicação do prof. Ricardo da Costa durante o curso dele sobre História da Arte. É um tijolo de 700 e poucas páginas sobre a Grécia. O Durant é, infelizmente, menosprezado pelos acadêmicos da atualidade e acho que entendo o motivo. De qualquer forma, a leitura é bem envolvente e já dei várias risadas lendo (?). Só Deus sabe quando vou terminar e SE VOU terminar. Enfim, não tenho pressa.

#4 A Grécia Arcaica de Homero a Ésquilo, da Claude Mossé.

Primeiro livro de biblioteca que leio na vida (não moro perto de nenhuma). Preciso confessar que não estou gostando da ideia de ter que ficar renovando, isso me deixa pressionada e eu não consigo ler um livro tão importante para mim de forma tão rápida. Não sei se vou terminar, estou pensando em só fazer uma leitura e mapeamento das ideias para devolver e pegar de novo posteriormente caso eu precise.

Estou usando o goodreads para registrar algumas dessas leituras :) (meu perfil aqui)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Mudei o nome do blog :)

Há um tempo eu estava querendo mudar o nome do blog porque nomes em inglês dificultam, né? Na verdade, eu não mudei, mas só traduzi. Agora é "leituras da Camila", bem melhor, né? Agora vou ter que reajustar todos os links por aí (igual mudar os documentos quando troca de nome hahaha).

Até mais!

domingo, 18 de janeiro de 2026

Favoritos de 2025

Eba! Mais uma lista de favoritos aqui. Este vai ser o segundo ano em sequência, o primeiro está *aqui*.

Já estamos em 2026 e neste ano o blog vai fazer dois anos! Eu nem acredito... passou muito rápido. Agradeço a minha amiga do Bosque do Robin por ter me trazido de volta para o mundo dos blogs. Amo pensar que, muito provavelmente, estes posts vão ficar para sempre na internet e que eu sempre vou poder voltar aqui para relembrar coisas e revisitar memórias. Bora lá, então.

Leituras

Em 2025 eu pude amadurecer um pouco mais o meu relacionamento com os livros e isso me fez atribuir mais sentido as minhas escolhas e compras. Comprei bastante em sebos e fui muito feliz com meus livros novos! 

Vou destacar um livro de cada seção:

1. Da Bíblia o livro favorito foi o Atos dos Apóstolos. Destaque especial para o episódio da Pregação de São Paulo em Atenas (At 17, 16-34): simplesmente um dos episódios mais incríveis não só da Bíblia, como da História Antiga: 

Paulo, estando em pé, no meio do Aréopago, disse: "Homens atenienses, em tudo vos vejo muito religiosos. Porque, indo eu passando, e vendo os vossos monumentos sagrados, encontrei também um altar, sobre o qual estava escrito: Ao Deus desconhecido. Aquele, pois, que vós adorais sem o conhecer, esse vos anuncio! 

2. Das leituras espirituais, destaco o livro "Cristo versus Satanás em nosso dia a dia". O título chama atenção, bem como o conteúdo do livro também. O autor americano fala de tudo um pouco: manifestações demoníacas, desânimo e depressão, pecados capitais... eu gostei bastante da leitura, aprendi muitas coisas, sendo uma delas a de que o maligno quer que as pessoas NÃO questionem o estado das coisas do mundo. 

3. Da seção de literatura eu quero destacar "Rei Édipo" e "Antígona", as peças de Sófocles. Quando peguei para ler, não imaginava que encontraria tanta profundidade ali apesar de saber que os mitos por trás das peças são profundos e atemorizantes talvez (?). Eu não consegui ler tanto de literatura quanto gostaria, mas o que li me marcou profundamente. Também posso destacar aqui "O Idiota", do Dostô (o final me causou arrepios) e "Um Cântico para Leibowitz", de Walter Miller Jr., uma distopia que acompanha um mundo pós-apocaliptico sob a perspectiva de um mosteiro católico.

4. Agora, da seção que eu mais li em 2025, não ficção, destaco a minha releitura de "A Vida Intelectual" do Sertillanges e "Mito e Realidade" do Mircea Eliade.

Fiz resenha para O Idiota e para Mito e Realidade e estão *aqui*. Também registrei algumas das minhas leituras no goodreads.

Entretenimento 

* Filmes favoritos: A Vida é Bela (1997), O Príncipe do Egito (1998) e O Castelo no Céu (1986).
* Podcast que mais ouvi: Memoria Press | podcast em inglês sobre livros e educação clássica, bom para treinar o listening.
* Canais favoritos do youtube: Tatiana Feltrin e Literary Testing (livros) | julia belinatti (vlogs) | Thalita Campedelli (vlogs, maternidade e vida cotidiana)
* No final do ano eu comprei um livro de bobbie goods e é maravilhoso e divertido, estou pintando bem de vez em quando.

Música

Antes de qualquer coisa: EU FUI NO SHOW DO LINKIN PARK!!!!!!!!!! às vezes nem acredito, sabe? Foi um dos dias mais divertidos da vida. A Emily e o Mike são surreais ao vivo e a setlist foi dos sonhos (só faltou IGYEIH!) - os vídeos do show ficaram hilários, apesar de só conseguir ouvir meus gritos. A gente não conseguiu chegar a tempo de ver a Poppy no show de abertura, mas depois eu acabei ouvindo mais dela (e ficando triste por não ter visto o show). 2025 foi o ano de música mais pesada mesmo (rock!!!!!).

* Artistas favoritos: Radiohead, Linkin Park, Jeff Buckley e Turnstile.
* Álbums do ano: The Bends (1994), Grace (1994), From Zero (2024), GLOW ON (2022) e NEVER ENOUGH (2025). 
* Músicas favoritas: 
Dá para acreditar que ouvi uma dessas ao vivo! Nem acredito.

Momentos em fotos


* Meu cachorro ficou bem mal a maior parte do ano, mas ele tem seus momentos bons e ainda está com a gente :) estamos aprendendo a cuidar de um idoso de 16 anos.
* Passeamos bastante: conhecemos muito sebos, tomamos sorvetes...
* Show do Linkin Park :)
* Dei muitas aulas e, apesar do estresse, vivi momentos memoráveis.
* Acompanhei o conclave! Que momento emocionante (eu estava vendo na hora!!!).
* Fiz um curso de História da Arte Antiga e Medieval <3
* Passamos uma manhã de domingo no mosteiro e no carmelo aqui de Brasília e até gravei um vídeo.
* Fiz uma capa para o meu Kindle depois de 2 anos e isso me fez muito feliz.
* Fizemos uma viagem inesperada para Campinas e eu amei a cidade.

Tchau! 2026 vai ser um ano de muitas mudanças por aqui. Em breve espero poder escrever sobre elas.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Cartas a Theo, Van Gogh | comentários e recomendações

Depois de um bom tempo apareci por aqui com uma resenha :)


Nos últimos meses reduzi bastante a minha frequência de leituras por motivos de trabalho e últimos meses de graduação (yay!), mas em setembro decidi reler Cartas a Theo, já que tinha comprado no sebo uns meses atrás e que havia acabado de ler "Cartas a um Jovem Poeta" do Reiner Maria Rilke (que, aliás, não me agradou tanto), então peguei o embalo e li dois livros epistolares neste ano.

Eu já havia lido Cartas a Theo em 2023, pelo Kindle, mas sem muita prentensão. O interesse pela figura do Van Gogh surgiu a um tempo pela presença dele na cultura visual dos últimos anos (A Noite Estrelada parece fazer parte da cultura pop dos últimos anos ou é coisa da minha cabeça?), mas o interesse pelas cartas em si foi mais recente e não me lembro exatamente como e quando aconteceu, mas de alguma forma cheguei no Van Gogh.

Eu gosto de conhecer mais sobre artistas, suas vidas e processos criativos porque eu me identifico com muitos deles em vários sentidos. No caso do Van Gogh, diria que a minha identificação parte pela sensibilidade que ele transmite. Pelas cartas conseguimos entender que a genialidade dele estava justamente na capacidade de apreciação daquilo que parece banal ou simples demais. Ele admirava grandes pintores e os estudava com paixão, mas a vida o impeliu a pintar coisas que são comuns a todos nós (por mais que não pareçam): a natureza e a luz. 

Eu ainda não li a biografia do Van Gogh (na verdade, eu ainda não li nenhuma biografia :(), mas acredito que estas questões devam ficar mais claras com o conhecimento da personalidade dele que, inclusive, parecia muito complexa e conturbada, mas a verdade é que qalquer comentário que eu faça sobre a personalidade dele seria insuficiente ou apenas um palpite, já que as cartas não são suficientes para compreender esse aspecto. Pelo o que entendi, as edições de Cartas a Theo contam com as cartas do Van Gogh para o irmão, somente, ou seja, não temos acesso àquilo que o irmão escrevia. Na verdade, até temos acesso sim, mas as cartas não estão traduzidas (caso alguém por aí fale holandês ou francês, as cartas estão aqui).

Falando nesse site aí, eu AMO quando encontro sites na internet que sejam relacionados à leitura que estou fazendo... existe tanta coisa interessante na internet se a gente conseguir procurar, né? Nesse site eles disponibilizam todas as cartas originais digitalizadas, comentários, explicações e coisas do tipo. Também conseguimos ver os desenhos que o Van Gogh enviava para o irmão (achei isso o máximo!).

Carta 173 (essa ilustração me lembrou a gravura do Gustavo
Doré para o Círculo dos Suícidas na Divina Comédia ↓)


O que eu não achei o máximo foi a minha edição. Como comentei, comprei no sebo por 25 reais uns meses atrás e é uma edição da década de 70 bem usadinha e com marcas o tempo (o que gosto), mas acontece que a diagramação é horrível. A edição não divide as cartas de um jeito coerente e o que temos são trechos de cartas que não dá para entender quando começam ou terminam. Existe uma enumeração nas cartas que não é explicada em lugar nenhum do livro. Acredito que a edição mais recente do livro corrija tudo isso. 

Tirando as intercorrências com a edição, as cartas são muito interessantes, mesmo o livro ficando maçante em determinado momento. Obviamente as cartas são muito pessoais, mas em X momento ficam TÃO pessoais que eu não sabia se deveria estar lendo. Não que tenha algo muito pessoal nas cartas selecionadas do livro, mas em alguns momentos não dá para entender muito bem do que eles estão falando (até porque não existem notas explicativas). De qualquer forma, as cartas trazem trechos e narrações sobre o cotidiano do Van Gogh, a luta contra a fome e a escassez de material para o trabalho, já que o pintor foi sustentado pelo irmão, Theo, que bancava o trabalho do irmão e as necessidades dele como homem e pintor.

Pelas cartas sabemos que: o Van Gogh nasceu em uma família protestante, o pai era pastor; ele tenta seguir os passos do pai, mas não consegue por várias questões; sabemos que ele era um viajante, quase um nômade, já que não ficava muito tempo no mesmo lugar; ele amava ler e durante as cartas ele cita vários livros que estava lendo (amei isso, fiz uma lista com alguns) e também podemos saber que, aos poucos, o Van Gogh foi perdendo a fé em Deus (o que é triste). Ele vai sendo corroído, lentamente, pelas questões mentais e debilidades psicológicas. 

Apesar do sofrimento psicológico e da fome, o Van Gogh parecia um homem muito perseverante e determinado. A produtividade dele era impressionante, acredito que ele pintava dezenas de quadros em uma semana. Em vários momentos ele comenta sobre a necessidade do trabalho para o manter são.

Eu queria muito poder colocar várias partes lindas aqui, mas escolhi as minhas favoritas para deixar aqui juntamente com algumas pinturas lindas, interessantes e pouco conhecidas do Van Gogh.

"A vida não nos teria sido dada para enriquecer nossos corações, mesmo quando o corpo sofre?"

Canteiro de Flores na Holanda (1883)

"É bom amar tanto quando possamos, pois nisso consiste a verdadeira força, e aquele que ama muito realiza grandes coisas e é capaz, e o que se faz por amor está bem feito."

Avenida dos Choupos no Outono (1884-85)

"Preferi a melancolia que espera e que aspira e que busca, àquela que embota e, estagnada, desespera."

Le Moulin de la Galette (1886)

"Mas involuntariamente sou levado a crer que a melhor maneira de conhecer Deus é amar muito."

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Detox de dopamina e favoritos dos últimos meses

Bom, eu desativei meu Instagram pessoal. Foi a primeira vez em 12 anos. Na verdade, eu já não usava aquela conta e raramente entrava ou postava algo lá, no fim das contas, na prática, não mudou muita coisa, MAS, por incrível que pareça, a diferença tem sido grande. Não posso negar: parece que tirei um peso das costas (?).

Um dos momentos favoritos: fui no Mosteiro e no Carmelo
 (tem vlog aqui no blog sobre esse dia)

Eu ainda mantenho minha conta secundária (agora primária) sobre livros e estudos aqui no computador. O aplicativo do Instagram quase não ficou no meu celular no último ano, o que eu estou amando. Eu queria mesmo apagar tudo e ficar sem, sabe? Mas ainda acompanho algumas pessoas e conteúdos que me interessam, mas quem sabe um dia num futuro próximo, não é mesmo?

Tudo isso para dizer que tenho sentido, de verdade, alguns efeitos desse distanciamento da última rede social que me restou. Não sei se posso dizer que é um detox de dopamina porque ainda tenho usado alguns aplicativos que ainda contribuem negativamente para toda essa dependência em relação à reposição de dopamina no meu organismo (como o Youtube ou o Spotify), mas consigo, definitivamente, sentir que meus pensamentos estão menos frenéticos e intensos. Graças a Deus tenho conseguido silenciar mais internamente, mesmo que, às vezes, eu passe algumas horas ouvindo música ou vendo algo no Youtube. A questão é, agora, consigo me sentir *incomodada* com essa frequência, por vezes, frenética e isso é, claramente, uma novidade por aqui, já que passei os últimos anos no ciclo vicioso sem perceber. No fim parece uma libertação de um vício e isso é assustador.

Descobrimos uma sorveteria nova com um sorvete
de chocolate parece um mousse com pedaços de 
chocolate dentro!!! AAAAAA

Infelizmente não tenho conseguido reverter essa libertação de telas e dopamina 100% nos meus estudos e leituras porque o trabalho e a faculdade tem consumido meu tempo quase que inteiramente e por esse motivo estou contando os dias para o fim do semestre. Não vejo a hora de poder ler meus livrinhos e retomar meus estudos sobre a Grécia Antiga. 

Algumas coisinhas têm me acompanhado nesse momento de introspecção e silenciamento interno.

#1 - músicas e artistas novos:


criei uma playlist chamada "graças a Deus conheci Radiohead em 2025" | não gostei do álbum novo da Taylor e os meus streamings refletem as minhas primeiras e únicas tentativas de ouvir | também descobri Jeff Buckley!!! | linkin park!!! Menos de um mês para o showwwww aaaaaaaaa | álbum novo do twenty one pilots e da hailey!!!

#2 - entretenimento
Say Yes to The Dress: seriado com 23 temporadas sobre noivas que vão até uma loja de Nova York para comprarem o vestido de noiva perfeito - estou julgando como se não houvesse o amanhã e me divertindo :D | um vídeo favorito: "how did the world get so ugly?" (como o mundo ficou tão feio?)


#3 - livros
estou relendo as cartas do Van Gogh para o irmão dele e tô registrando no good reads! | estou lendo um clássico da historiografia: "Que é História?", pois sou quase historiadora e eu amo estudar História <3 | também estou fazendo uma leitura espiritual: "Cristo versus Satanás em nosso dia a dia: A batalha cósmica entre o bem e o mal" e estou aprendendo várias coisas interessantes sobre assuntos banalizados pela cultura ocidental moderna como exorcismos e coisas relacionadas.

    Sim, eu sei que os livros de cima estão destruídos, mas fazer o que? 
Não deveria ter comprado eles no sebo, mas já que tenho aqui vou ler, né? |
O de baixo, sobre a Grécia, foi uma recomendação do prof. Ricardo da Costa
no último curso que fiz dele sobre História da Arte.

No fim, ando percebendo que o tal "detox de dopamina" talvez não seja sobre se livrar totalmente da internet ou algo assim, mas sobre lidar e controlar nossos impulsos diante dela. Continuo ouvindo música e assistindo vídeos legais no Youtube... enfim, fazendo tudo o que gosto na internet, mas de maneira consciente, reconhecendo a hora de parar e de silenciar. Pareço uma criança sendo reeducada e isso me deixa feliz :)

Falei demais e deixei o post meio poluído visualmente, mas a vida é meio caótica também. Até mais!

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

#2 Fotos que não quero perder

Saudades das memórias. Saudades de fotografar por aqui e por ali.

Dessa vez a seleção é de fotos de 2022-2023. Nessa época eu estava explorando o modo retrato do meu iPhone 8. No começo de 2024 decidi trocar e agora tenho um iPhone 11 que, por incrível que pareça, não faz a mesma coisa que o anterior. Saudades do meu iPhone retrô.


Dama com arminho, do Leonardo da Vinci (1489-1490)



Ipês rosas na Asa Norte em Brasília.


    Um lugar que gosto muito: Sebinho na Asa Norte também.


Pôr do sol em um sábado.


Outro sebo pela cidade (parece que ficou famoso na internet).


iPhone 8 + modo retrato + Lightroom = fotos lindas. Hoje em dia não consigo
mais tirar fotos assim... quero muito ter uma câmera um dia.




quarta-feira, 16 de julho de 2025

Resenha: Questões de Moral e Educação de Émile Boutroux | ideias da educação moderna, moralidade grega e surgimento da ideia de pólis

Despretensiosamente comprei esse livrinho no Mosteiro no mês passado.

O título me chamou atenção e quando dei uma folheada no sumário logo percebi que seria de grande valia para os meus estudos. Inclusive, eu gravei um pequeno vlog desse dia em que visitei o Mosteiro e está disponível aqui no blog.

Agora falando sobre a obra: é relativamente curta, possui 149 páginas nessa minha edição (não sei se existe outra em português) da editora Kírion. Editora essa que, diga-se de passagem, publica obras interessantíssimas, mas que me decepciona um pouco quanto à encadernação dos livros. Eu não sou de fazer estripulias com meus livros, já que leio sempre apoiada na mesa, mas mesmo assim os livros descolam com facilidade. A qualidade das folhas é ótima, mas a encadernação realmente fica a desejar. De qualquer forma, os conteúdos dos livros que tenho da editora são bem valiosos. 

O primeiro capítulo/conferência intitulado Os três tipos de moral foi deveras interessante e proveitoso. O subtópico sobre a moral helênica foi o que mais me gerou interesse já que é o que eu venho estudando com mais afinco nos últimos tempos. As demais partes do livro, confesso, não me geraram entusiasmo, tanto que ao final da leitura eu só queria terminar logo. 

O autor segue uma linha de pensamento, da qual eu não sei nomear e que parece bem comum na segunda metade do século XIX, em que os pensadores adotam uma postura de reverência quanto à cultura ocidental clássica, mas que, ao mesmo tempo, parecem se escorar em uma mentalidade completamente laica e liberal. Não acho que seja desproposital, ainda mais considerando que o autor é francês. Essa consideração surgiu para mim logo nas primeiras páginas da Introdução, onde o autor não esconde suas preferências e ideias sobre educação:

O melhor que o educador pode fazer é ensinar aquilo que é efetivamente objeto de nossas meditações na vida real. Ele irá reunir as mais belas e sólidas expressões da consciência moral e, a exemplo do homem que age e vive no seio da sociedade, procurará conciliá-las. Ele compreenderá que a cidade que bastava aos gregos não é mais suficiente para os modernos; que estes vêem também coisas boas em si mesmas na família, na fraternidade humana, na ciência, na justiça, no respeito à consciência, na liberdade, no trabalho, na igualdade; e irá persuadir os espíritos de que a melhor conduta é aquela que, entre muitos pontos de vista diversos, concilia o maior número de interesses, produzindo o menor número de vítimas*. Ele irá rejeitar a idéia pouco prática do absoluto. Todas as obras do homem comportam algum defeito. Pretender manter apenas as que fossem boas sob todos os aspectos seria condená-las todas. *utilitarismo* 

À primeira vista esse trecho parece inofensivo, e realmente será se você partir do pressuposto de que a educação moderna é efetiva, mas se analisarmos tais afirmações com uma lupa iremos logo perceber que a carga liberal aqui é intensa. As ideias de fraternidade, laicidade e ausência de conceitos absolutos são o "puro suco" da mentalidade moderna ocidental pós Revolução Francesa. Confesso que essa frase sobre rejeição do absoluto me causa arrepios. Um professor do sistema de ensino atual vê, cotidianamente, o que essa ideia provoca nas consciências em formação dos educandos. Educar sem ter em vista um fim é perda de tempo, desperdício de vida e recursos. Talvez seja o maior problema da educação na modernidade.

Falando assim até parece que a minha leitura foi em vão, mas nunca é. Logo no final da introdução o autor nos surpreende com uma das melhores frases da obra ao escrever: "Que diferença entre o interesse e a eficácia de um ensino em que se tratam as coisas como palavras, e um ensino em que, sob as palavras, buscam-se as coisas!". 

Agora, gostaria de me deter com mais afinco na parte que comentei anteriormente sobre a moralidade helênica. Caso alguém ainda esteja lendo essa resenha até esse ponto (😅) acho que seria legal comentar mais uma vez que venho estudando (ou pelo menos tentando) sobre a História das Ideias na Grécia Antiga ou, como costuma aparecer por aí, as origens do pensamento ocidental. Tudo começou quando li a Ilíada e Odisseia. Desde então, venho lendo, escrevendo e refletindo sobre a temática e, mais precisamente, no campo da Educação. Neste ponto que entra o livro da vez. Ainda na introdução, o autor afirma que o intuito dos escritos é tatear as ideias constituintes do pensamento ocidental. Vale dizer que o livro é super introdutório e só apresenta conceitos gerais mesmo.

Muito me interessou quando li que ele iria apresentar as características dos principais tipos de perfeição nos sistemas morais já que é o justamente o que venho tentando estudar ultimamente: para um grego, o que era ser perfeito?

Ele começa com uma breve introdução à origem da moral, que nasce na Grécia com Sócrates. A moralidade helênica começa a surgir quando a religião deixa de ser a forma predominante de entendimento da realidade, ou seja, quando a filosofia surge. É importante deixar claro que aquela oposição dicotômica que nos é apresentada no Ensino Básico entre razão e mito não é tão clara e bem definida quanto parece, já que a própria filosofia se utiliza dos mitos e explicações religiosas para exemplificar e estabelecer conceitos. É claro que existe uma diferença entre os dois conceitos, mas tal diferença não é tão antagonizante como nos fizeram crer. O Mircea Eliade fala sobre essa questão em sua obra "Mito e Realidade" que, aliás, já tem resenha aqui no blog também.

O Boutroux fala sobre algo que muito me chama atenção na história da Grécia que é o momento em que a mitologia começa a ser questionada e até mesmo ironizada pelos filósofos helenos que passam a enxergar uma certa imoralidade por parte dos deuses gregos. Eu nunca li Xenófanes, mas é a segunda vez que me deparo com ele quando o assunto é questionamento dos mitos. Pode ser que em algum momento eu venha a lê-lo diretamente. Sobre a motivação para o questionamento dos mitos, o autor fala brevemente de forma muito abreviada sobre o assunto. Senti falta de uma explicação. De qualquer forma, fica claro que, aos poucos, a religião passa a se enfraquecer. O homem passa a sentir que as explicações fantásticas para a realidade não poderiam suprir, por completo, a sede de ordenação e esclarecimento da realidade que a natureza humana possui. 

O descobrimento dessa ordenação da realidade parece ser crucial para o entendimento das transformações na Grécia. Voltando à Sócrates, o autor comenta sobre como o filosofo foi fundamental para o descobrimento da existência da natureza humana. Outro autor que vem sendo referência nos meus estudos também comenta sobre essa questão ao escrever que "a tendência do espírito grego para a clara apreensão das leis do real, tendência patente em todas as esferas da vida - pensamento, linguagem, ação e todas as formas de arte -, radica-se nessa concepção do ser como estrutura natural, amadurecida, originária e orgânica" (Werner Jaeger em Paideia, p. 9).

Essa questão é tão fundamental que logo em seguida o autor já nos apresenta à questão da formação da ideia de pólis. É interessante pensar nisso, pois imagino que assim como eu, você também tenha tido aquela aula sobre Grécia Antiga na escola onde o professor comenta sobre os gregos se organizarem em cidades-estados, em pólis independentes entre si e tal... pois é, acontece que o buraco é MUITO mais profundo. Da maneira como nos apresentam somos levados a crer que as cidades surgiram na Grécia, o que não faz sentido quando sabemos o mínimo sobre História Antiga. O que me parece surgir na Grécia é, na verdade, o entendimento da necessidade de ordenação das sociedades, entendimento esse que surge quando eles começam a perceber a ordenação da realidade tanto na esfera micro quanto macro. O homem, animal político e ser ordenado por natureza, não poderia viver em um ambiente que não correspondesse a esse ordenamento interno nato. Daqui podemos compreender como, na Antiguidade e na Idade Média, os homens enxergavam as instituições e as leis como geradas naturalmente pelos homens e não como fatores esmagadores das liberdades humanas como querem os modernos: 

não era como pensavam os gregos: eles viam na cidade uma instituição fundada, sem dúvida, na natureza, mas realizada pela inteligência, pela reflexão e pela engenhosidade humanas. A cidade era uma obra de arte, a obra de arte por excelência.

E o que é a cidade? Qual o seu princípio? A cidade é essencialmente uma harmonia: é a ordem inteligente que substitui a desordem natural; é o equilíbrio estabelecido entre as diversas classes de homens que representam as aptidões e necessidades diversas da natureza humana. A ideia moral nela manifestada é a ideia de comedimento, ordem e harmonia. É, portanto, a faculdade de conceber e realizar a harmonia que o grego descobre em sua alma, quando se volta para si mesmo (trechos da página 32).

 Pretendo continuar esboçando o assunto em uma parte II para essa resenha. Até lá!


domingo, 22 de junho de 2025

Pequenos momentos #9 | um domingo católico

Depois de muito tempo voltei com os mini vlogs que tanto gosto de fazer. Desta vez trouxe um vídeo do meu último domingo quando fomos à Missa no Mosteiro de São Bento de Brasília e no Carmelo de Nossa Senhora do Carmo.

Já havia ido aos dois lugares, mas nunca para a Missa. Fiquei feliz demais e saber que tenho esse registro aqui também me dá muita felicidade.

Até!

 

segunda-feira, 16 de junho de 2025

Um artigo rejeitado.

Entre abril e maio dei continuidade aos meus estudos sobre Paideia Grega por meio da produção de um novo artigo. Era um dossiê bom para os temas que tenho interesse e que quero estudar no mestrado, mas acontece que o artigo foi rejeitado. Confesso que não estava esperando, achei que conseguiria publicá-lo.

Pelo o que entendi eles rejeitaram por conta dos pressupostos que utilizei para redigir sobre o tema e também por conta da maneira como tratei a bibliografia que escolhi. O e-mail que me enviaram foi grande.

Enfim, acontece. Não quero que o artigo vire só mais um arquivo no meu notebook. Quero muito trabalhar mais nele e continuar estudando sobre. Agora o que me resta é paciência e perseverança.

Estou registrando isso aqui no blog porque: 1) serve como lembrete para o futuro; 2) eu falo sobre meus estudos aqui e 3) comecei a registrar a minha "jornada" rumo ao mestrado aqui no blog e, portanto, estou dando continuidade. O primeiro texto foi esse daqui: Diário de preparação para o mestrado: primeiros passos.


Seguimos...

segunda-feira, 26 de maio de 2025

Notas sobre História da Arte: Grécia Arcaica e Clássica

Estou fazendo um curso do professor Ricardo da Costa sobre História da Arte Antiga e Medieval e apesar de estar fazendo anotações no meu caderno, pensei que seria legal e interessante deixar registrado aqui também algumas das minhas impressões sobre as aulas conforme for assistindo.

Uma coisa que o professor disse na primeira aula é que dentre os estudiosos de Humanas, o historiador da arte precisa ser o mais interdisciplinar e isso faz muito sentido já que uma leitura profunda dos objetos artísticos em questão exige um conhecimento que vai além da técnica propriamente dita: o estudioso precisa de conhecimento histórico, sociológico e, claro, cultural se quiser entender os mais profundos pormenores de qualquer peça de arte, sejam pinturas, sejam escultura ou o que quer que seja. 

Meu desejo é estudar mais profundamente a Grécia Antiga e será muito proveitoso para eu entender mais do desenvolvimento da arte na Antiguidade já que os objetos produzidos por eles que chegaram até nós são reflexos materiais do desenvolvimento das ideias que floresceram no seio do povo grego, a ideia de Beleza é um desses principais exemplos. 

Falando em Beleza, o professor trata bastante dessa questão dos conceitos transcendentais do ser refletidos na Arte. Aproveitei aqui para pegar o meu caderno anterior onde tenho mais anotações sobre essa questão e encontrei coisas interessantes: 

1. Cada potência da alma está destinada a um conceito transcendental do ser:
Verdade → Intelecto; Bem → Vontade; Beleza → Memória.
2. A Beleza resulta do somatório do Bem e da Verdade;
3. Algo Belo deve ser simultaneamente Bom e Verdadeiro;
4. A memória nos conduz às coisas belas.

Na Grécia Antiga, a busca pela Beleza foi se interiorizando com o passar dos séculos (junto com o conceito de virtude). Inicialmente, ser belo não era, necessariamente, ser bom (pelo menos como nós imaginamos). Tal questão se reflete nas estátuas e vasos do período Arcaico, onde os homens são retratados nus. O professor diz que, na Grécia, belo era o homem nu e que as mulheres não eram tidas como belas. Estas sempre eram retratadas vestidas e só posteriormente que começam a retratar Vênus/Afrodite despida. O universo da Beleza estava circunscrito ao universo masculino. 

O ideal de Beleza para eles estava ligado ao ideal de proporção e simetria. As primeiras estátuas são bons exemplos para entender como tal noção se desenvolve: percebemos que aos poucos as estátuas começam a ganhar mais movimento e, o mais importante talvez, o corpo começa a ser retratado mais realisticamente.

Na esquerda: Kleobis e Bíton (c. 580 a.C) de Polímedes de Argos.
Na direita: Discóbolo (c. 450 a.C) de Míron.

É interessante como toda a arte grega desenvolve-se: as estátuas ganham movimento e delicadeza, os vasos são aperfeiçoados por uma nova técnica, as colunas dos templos ganham curvas... e tudo isso me fez pensar mais uma vez sobre como as ideias regem o mundo material (... e voltamos para a analogia do texto anterior)

Posteriormente, na Grécia Clássica a noção de Beleza não estava mais estritamente circunscrita ao masculino e cita Platão como referencia para a questão da Beleza estar, agora, ligada ao Bem: quem se comporta bem é feliz. Agora o Belo passa a ter uma nuance moral, de excelência moral. 

Sobre os vasos gregos: me chamam atenção desde a leitura da Ilíada, pois eles aparecem muito nas cenas internas, nos palácios. Os vasos eram variados e utilizados para as mais variadas funções. Também eram dados como presentes e eram sinal de riqueza. Sobre a técnica dos vasos, o professor destaca a transição entre os vasos de figuras negras e figuras vermelhas e a consequente delicadeza e detalhes que os vasos ganham.


Processo de fabrição dos vasos
com figuras negras.



 
Aproveito para deixar aqui a recomendação de um artigo chamado Mélissa do Gineceu à Ágora do Fábio de Souza Lessa, onde o autor investiga mais a vida da mulher na Atenas Clássica. Ele também comenta sobre as figuras femininas dos vasos. 

É isso. Até a próxima!

segunda-feira, 12 de maio de 2025

Trechos do capítulo “Gibraltar pela manhã" - Egito, Eça de Queiroz

Comprei este livro no sebo ano passado por indicação de uma pessoa (que não faço ideia de quem seja), mas que comentou que era um livro belíssimo, interessante e raro. Não lembro quanto paguei, mas valeu muito a pena. Esta edição que tenho aqui é portuguesa, de Lisboa, e é de 1945 (80 anos!).

Estava aqui na prateleira em cima da mesa e a peguei despretensiosamente para dar uma folheada já que estou tendo a matéria de História da África na faculdade. Já posso dizer que a beleza material do livro faz jus à beleza dos próprios escritos e é justamente por esta beleza que decidi escrever essas notas aqui (o livro tem 80 anos então não vai dar para escrever nele e por isso preciso externalizar minhas impressões já que só assim retenho melhor o que li). 

São notas de viagem que o autor português do século XIX fez em uma viagem de 2 meses, entre outubro de 1869 e janeiro de 1870, pela costa portuguesa e espanhola, pela ilha de Malta e, finalmente, pelo Egito.

Apreciem essa beleza comigo :)

Trechos de "Gibraltar pela manhã"

Quarta-feira - Outubro

[...]

O ar do Outono amarelecia e despojava levemente todo aquele povo de árvores. Passávamos por diante de cottages, de jardins, de pomares, e sempre, através dos ramos, para além das casas, entre as ramagens ou no entrelaçamento dos troncos, luzia, azul como uma pupila humana, a água infinita do Mediterrâneo.

[...]

Nada há igual à sensação de se caminhar assim entre arvoredos, vendo sempre reluzir o fino azul da água. Descansámos um momento num jardim cheio duma doçura infinita. Toda a sorte de árvores, de ramos delgados, se entrelaçam, se prendem e limitam o horizonte, deixando-o entrever apenas, sereno e azulado, para além das suas ramagens. E aquilo, ali, um centro suave, longe do mundo, estreito e ao mesmo tempo ilimitado, onde a vida e a sensação se espiritualizam e se confundem com o alto pensamento vital das coisas. A vida, o ruído, os soldados, os uniformes vermelhos, as trombetas, os véus das mouras – nada ali chega: uma muralha de árvores, de relvas de plantas, isola aquele lugar de contemplação. Só se vê o mar, o céu azul, as montanhas, tudo quanto é sereno e inefável. Nada da vida material ali cativa a alma. As finas sensações delicadas, as percepções inteligentes, florescem, envolvem o espírito. Senta-se a gente, e olha, e contempla: não tem ideias, nem observações, nem crítica – mas apenas uma vida inerte, tão divinamente passiva como a vida das coisas.

O mar, o céu, os montes, a luz, penetram-nos, vivem em nós, embalam-se e 6 resplandecem na nossa alma. Sente-se que aquela região deve ser habitada por espíritos. Pensa-se apenas em coisas leves, onduladas, transparentes: em linhas puras, em sensações simples – e a nós, homens inquietos e nervosos, corroídos pelas aflições da realidade e pelas dores do trabalho, a primeira ideia que nos vem é a de esquecer, ficar ali esperando a vida, como a esperavam as antigas almas dos poemas de Homero nas serenas e nubladas regiões inferiores! Ali, se o homem pensasse em construir, só lhe lembraria a linha pura, a reta suavíssima ou a lenta curva toda aberta ao dia e à luz. Se o homem pensasse em soltar a voz, fá-lo-ia cantando – e parece que todo o pensamento humano deveria ter naquelas paragens a modulação natural dum verso de Virgílio. Ali, as coisas imensas têm a perfeição das coisas delicadas: o mar lembra uma pervinca (1), o céu uma ametista. Aquela região é a pátria das almas. 

Imagem aérea de Gibraltar


(1) A cor azul pervinca e a flor que recebe o mesmo nome.